quinta, 15 outubro 2015 15:52

AS MINHAS RAZÕES PARA ACREDITAR NA LUSOFONIA

AS MINHAS RAZÕES PARA ACREDITAR NA LUSOFONIA

António Gil Hernández

da Associação de Amizade Galiza-Portugal. 24 de Fevereiro de 2004

Permito-me, mais uma vez, dar a lume umas reflexões, velhas, muito velhas, neste mundo de imediatezes desacougadas, que atualizo levemente. Conservo o título que coloquei às primeiras: «As minhas razões para acreditar na Lusofonia». Pretendo que ecoe o do livro do saudoso Prof. Rodrigues Lapa 'As minhas razões. Memórias de um idealista que quis endireitar o mundo...' (Coimbra Editora, 1983).

 

No meu texto, que foi publicado em 'Cadernos do Povo. Revista Internacional da Lusofonia' (núms. 5-14, 1988-89, pp. 17-19), começava de expor a concepção de LUSOFONIA para delinear a seguir as tarefas que hão-de cumprir-se e as condições para a verificar.

1. Entendo por LUSOFONIA a Comunidade integrada por aquelas pessoas que podem exprimir-se na Língua Portuguesa e assim o fazem habitualmente. Porém, a LUSOFONIA pressupõe determinada concepção da unidade que anima os lusófonos e sobretudo acarreta um discurso a legitimar essa concepção unitária, à qual alguns lhe diriam "sentimento". É com a afirmação da unidade que se constrói a unidade; é com a procura de motivações unificantes e não precisamente uniformadoras que o processo de unidade acabará tomando corpo de firmeza.
Entendo que são condições terminantes para verificarmos a LUSOFONIA quer a vontade, também política, de a realizar, quer a assumpção generalizada do discurso da unidade. Caberia resumir ambas as faces numa expressão como «queremos ser lusófonos porque já o somos, apesar das diferenças e por elas mesmas».

2. Dentre as TAREFAS possíveis assinalo as de RECONHECIMENTO, as de IDEAÇÃO e as de ORGANIZAÇÃO.

2.1. Relativamente às TAREFAS DE RECONHECIMENTO, entendo que o património da LUSOFONIA assenta naqueles grupos que, independentemente da sua adscrição "nacional", quer dizer, estatal, profundizam e promovem os valores tradicionalmente transmitidos a meio da Língua Portuguesa, que, aliás, denomino "sentimentalidade intencionalmente eficaz", "universalidade sempre particularizada" e "persistência esperançadamente disponível". «Lirismo», «saudade», «descobertas», «retranca»... satisfazem esses valores.

2.2. Relativamente às TAREFAS DE IDEAÇÃO considero que, perante as tentações de eficácia imediata, de particularização individualista, de disponibilidade veleidosa, a cultura lusófona pode e deve incidir nos valores tradicionais e injetá-los (como vacina confortante por doses apropriadas) nas novas gerações, não apenas da LUSOFONIA, mas também nas pertencentes a outras Cmunidades Linguísticas.

2.3. Relativamente às TAREFAS DE ORGANIZAÇÃO, preciso que os cidadãos de Portugal e da Galiza hão-de compreender que, nas circunstâncias atuais, a condição de europeus (e, no caso dos galegos, também a de administrados do Reino da Espanha) não invalida a sua radical nacionalidade cultural lusófona. A comunicação consciente e medidamente procurada pelos cidadãos dos Sete (mais dous: Timor e a Galiza) e com eles e entre eles, o conhecimento ou reconhecimento da própria história e a ideação de tradições comuns e diversas, mas renovadas, libertarão da ignorância e da inconsciência, hoje generalizadas, os cidadãos da Galiza com a ajuda, sobretudo, dos cidadãos portugueses, os lusófonos "normais" mais próximos, como corresponde nestes tempos de rotura de fronteiras.

3. Reduzo a duas as CONDIÇÕES que possibilitarão o cumprimento dessas tarefas.

3.1. Uma é a atividade cívica, não justamente a institucional. Hoje as instituições e autoridades, enquanto tais, acham-se indecisas quando não confusas e até desacertadas. É a consciência cívica dos cidadãos, de todos e dos melhores, a construir e organizar plenamente a Lusofonia.

3.2. Outra condição consiste na definição do instrumento identificador da Comunidade Lusófona, que se manifesta na Ortografia unificada desde 1990 mercê do Acordo Ortográfico assinado em Lisboa, em 12 de Outubro, por representantes dos Sete países de Língua Oficial Portuguesa com a presença de observadores não governamentais da Galiza.

Datei a primeira redação deste escrito em Acrunha (Galiza-Spain) em Dezembro de 1988.