quinta, 15 outubro 2015 16:08

Alfabetização ou analfabetismo?

Ângelo Cristóvão

Secretário da Associação de Amizade Galiza-Portugal

17 de Outubro de 2003

 

      Em 1988, durante a celebração de um seminário de sociolinguística em Ourense, explicava-nos o sociólogo catalão Lluís V. Aracil a parvoíce de explicar as causas do analfabetismo e dedicar grandes esforços a realizar estatísticas sobre a matéria.

Concisamente, ele dizia que a causa do analfabetismo era, simplesmente, a natalidade. O esforço deveria dedicar-se, então, a fomentar o que em inglês de chama “literacy” (saber de letra). O que faz sentido é pensar e construir um sistema eficaz de alfabetização, que é o aspeto positivo do problema. Isto implica falar em organização dos sistemas de ensino, pedagogia, etc. Pensar no analfabetismo é sintoma de uma inversão de valores culturais conduzente ao insucesso.

      Durante este ano começou-se a vender na Galiza a “Gran Enciclopedia Galega Silverio Cañada”, redigida no portunhol (mistura de português e espanhol) que constumam utilizar e promover instituições como a Junta da Galiza e a Universidade de Santiago. Em coerência com essa concepção da língua da Galiza, as matérias figuram ordenadas pelas letras do alfabeto castelhano, consequência de uma lógica política evidente. Reparámos num item relevante do segundo volume:

 

       “ANALFABETISMO, s.m.: 1. Estado ou condição de analfabeto. 2. Fenómeno social caracterizado pela existência de persoas analfabetas” (pág. 248), da autoria de Gonzalo Anaya Santos et al.

 

      A definição destes autores é circular e inútil porque nada explica. Além do mais esta enciclopédia não inclui ALFABETIZAÇÃO nem ALFABETO, que poderiam ajudar a compreender alguma coisa relativa a esse fenómeno citado. Estes conceitos, de valor universal, precisariam algum esforço no sentido de salientar a sua importância capital para a língua e a cultura, em geral, não restritamente galegos mas, antes, concebidos e difundidos como elementos comuns para toda a civilização. Porém, esta enciclopédia, que recebeu grande apoio económico da Junta da Galiza, não foi pensada para compreender o mundo. Foi redigida, principalmente, para transmitir uma percepção da Galiza como Galicia, região espanhola, com uma língua e cultura promovidas pelas instituições oficiais apenas no caso de se apresentarem como radicalmente diferentes da portuguesa e submetidas conceptual e legalmente à castelhana.

 

      Os dois primeiros volumes desta obra antecipam a concepção do conjunto, segundo a qual o caraterístico dos galegos não é aquilo que temos em comum com os outros povos, ou a interpretação que os galegos damos aos elementos comuns da civilização europeia. Não, o salientável, aquilo que merece ser publicado nesta obra é o peculiar, o específico, a “identidade”, o que no âmbito político espanhol chamam agora “facto diferencial”, definido em relação como o âmbito político e cultural espanhol, em que se insere explicitamente a “Enciclopedia Galega Silverio Cañada”.

 

      A definição do conceito de analfabetismo, a incluir em duas páginas várias estatísticas do castelhano na Galiza, reproduz e mascara a dominação política da Galiza que é apresentada, nesta como noutras obras, como a “realidade” social sem explicação alguma, sem fornecer as chaves para compreendermos a relação hierárquica e subsidiária, secularmente estabelecida, entre a língua e cultura da Galiza e a espanhola. Apesar de a Espanha ser um estado formalmente democrático, onde na Constituição se declara existir uma igualdade de direitos entre os cidadãos, apesar do denominado estado autonómico, de facto, mantém-se invariável o submetimento das comunidades linguísticas de origem não castelhana.

 

      Em contraposição com o representado por esta perniciosa enciclopédia regional espanhola, os lusófonos galegos assumimos o caminho da universalidade através da promoção do português como língua nacional da Galiza, o que não impede que o castelhano seja utilizado também, mas apenas como segunda língua instrumental, como também o inglês e o francês, que devem fazer parte do ensino logo nos primeiros anos da escolarização.

(Artigo publicado na edição impressa de 17 de Outubro, pág.18).