quinta, 15 outubro 2015 16:09

Agricultura em crise (I)

Ângelo Cristóvão

Secretário da Associação de Amizade Galiza-Portugal

25 de Outubro de 2003

 

      Salientava o Transmontano na edição do 12 de setembro: “A agricultura portuguesa está em decadência”. O titular, em geral, pode ser aplicado igualmente à Galiza. Ao pensarmos nas causas desta situação, são mais importantes as perguntas do que as respostas. Estas derivam diretamente das primeiras, quer dizer, da forma em que compreendemos o problema.

 

      Oferecemos hoje a primeira descrição e análise dos problemas da agricultura galega. O tema tem interesse suficiente para lhe dedicar mais de um comentário, porque tem sido a atividade mais tradicional, a profissão a que se dedicou a maior parte da população até há poucas décadas, e porque continuará a ser sector estratégico no desenvolvimento económico da Galiza e do Norte de Portugal.

 

      A afirmação genérica “A agricultura está em crise” é discutível quando descemos a sectores concretos como a horticultura, em que a experiência demonstra as possibilidades reais de crescimento e rentabilidade na produção em estufas, além da comercialização. Não podemos afirmar que a crise é total nem geral; devemos estabelecer, primeiramente, uma diferença entre a agricultura de subsistência, de reduzida superfície, gerida por pessoas idosas e ligadas a umas técnicas tradicionais, e aquela perspetivada como atividade empresarial, empregando menos pessoas mas obtendo um maior rendimento. É esta a que realmente merece um esforço formativo e informativo, quer do ponto de vista dos média, quer da administração pública, que intervêm em diversos graus de responsabilidade no sucesso deste sector económico.

 

       Quanto aos poderes públicos, na Galiza, o governo autónomo tem amplas competências para desenvolver políticas favorecedoras deste sector. Um dos instrumentos de que dispõe são os gabinetes de orientação agrária mas, infelizmente, não estão a servir para o fim previsto. Infrautilizados e dedicados, quase exclusivamente, à “papelada” burocrática, muitos destes funcionários com formação universitária e vocação de ajuda ao desenvolvimento agrário, ficam desiludidos pela redução da sua atividade ao exercício dactilográfico e carimbador.

 

      Outros instrumentos são as feiras agrícolas. Se bem que foram criadas como fundações de gestão privada, continuam a ser controladas pelo poder político, a começar pela indigitação dos presidentes. A mais importante da Galiza é a “Semana Verde de Silheda”, está em baixa de expositores e público. Esta situação, semelhante às feiras agrícolas de Braga e Santarém, não pode explicar-se apenas pela tendência geral dos últimos anos, mas à intervenção e controle político da Junta da Galiza. Que podemos esperar de pessoas alheias a este sector e sem o mínimo interesse pela questão? A realidade é que os responsáveis pela feira agrícola de Silheda têm tanta relação e interesse pela agricultura como pela cosmologia.

 

      A miopia e o desinteresse do Partido Popular relativamente à horticultura galega é resultado, quer da sua ideologia política, quer da sua concepção do poder, cujo valor supremo é a subserviência permanente aos interesses espanhóis. Destarte, os fracassos na gestão são apresentados como resultado, quer da dinâmica interna do próprio sector, quer das políticas europeias, muitas vezes contraditórias com os interesses nacionais galegos. Os políticos do Partido Popular espanhol contemplam a agricultura como fonte de recursos, de impostos, multas e taxas de toda a espécie. As iniciativas e a resolução dos problemas costumam vir do próprio sector, que recebe apenas dos governantes regras e ordens coercitivas, talvez imprescindíveis numa política de ordenação, mas insuficientes, pela carência de uma política de promoção de novas alternativas, novas culturas, novas formas de exploração agrária.

 

      A horticultura oferece boas perspetivas de crescimento e rentabilidade, mas o meu conselho para os produtores é não esperar nada da administração pública, além de impostos, enquanto não mudar o partido governante.