quinta, 15 outubro 2015 16:10

Estratégias paralelas: O Estado espanhol contra o português e o catalão

Ângelo Cristóvão

Secretário da Associação de Amizade Galiza-Portugal

 

          Estão os catalães e, em geral, muitas personalidades e instituições da língua catalã, seriamente preocupados com os projetos de secessão linguística do valenciano. O tema tem interesse pelos paralelismos evidentes com a política que, na Galiza, partidos políticos espanhóis (P.P. e P.S.O.E.) e instituições folclórico-linguísticas como o Instituto da Lingua Galega e a Real Academia Galega têm praticado para promover o “galego”, quer dizer, para afastá-lo do português.

          Já logo no início da transição política da ditadura de Franco à actual democracia, se tinha acrescentado o debate –desigual, desleal e até imoral- respeito da unidade do galego e o português, do valenciano e o catalão, e a pertinência do euskara batua (basco unificado). Nestes debates sempre os nacionalistas espanhóis defenderam a cultura local procurando a desagregação das “outras línguas”.

          O caso do Estado Espanhol contra o catalão resume-se na seguinte estratégia:

 1.- Criam instituições folclóricas com aparência académica (como a “Acadèmia Valenciana de la Llengua”) controladas pelo poder político (a presidente é Ascensió Figueres, (ex)vice-presidente do Partido Popular regional), à que outorgam a autoridade linguística oficial. Estas instituições recebem grandes quantidades de dinheiro que é utilizado para fomentar na população atitudes contrárias ao catalão. São beneficiadas também com toda a publicidade institucional possível, o que faz com que a população suponha que, na verdade, esse governo está a defender a cultura local.

 2.- Inventam nas universidades a “filologia valenciana” e começam a negar o reconhecimento administrativo aos licenciados em filologia catalã para leccionar essa língua na Comunidade Valenciana. Destarte reduzem o espaço económico e laboral desta língua. Na Galiza separaram em dois o curso de filologia galego-portuguesa. Os licenciados em português já não podem ministrar aulas de galego.

 3.- Probições: Promovem a utilização exclusiva de uma listagem de 200 termos “autenticamente valencianos”, obrigatórios na televisão valenciana e nos livros de uso escolar. Os termos catalães equivalentes são proibidos. Também na literatura escolar ficam excluídos os autores não nascidos no território da Comunidade Autónoma Valenciana, com alguma excepção como Ramon Lull e Maragall. O governo do P.P. só aprova os textos adatados a estes critérios. Na Galiza isto acontecia já a começos da década de 80, aprovando só os textos escolares que excluirem autores tão importantes como Camões

 4.- No nível mais prático há outros exemplos: a Biblioteca Nacional espanhola separa os livros valenciano/catalão, e galego/português. Quanto às escolas oficiais de idiomas, a ministra de cultura do governo de Madrid, Pilar del Castillo confirmou que, no próximo curso, poderá estudar-se “valenciano” e “também catalão”. Reparemos em que os poderes do Estado Espanhol têm boa disposição para gastar milhares de contos na divisão das outras línguas, enquanto reforçam a unidade do espanhol. No caso da Galiza o governo do P. P. nunca dá dinheiro para as publicações das associações lusófonas, enquanto o seu presidente, Manuel Fraga, publica livros em português, cheios de gralhas, com dinheiro público.

 5.- Uma parte dos intelectuais que anteriormente defendiam a unidade da língua catalã já não se importam com dizer só “valenciano”, e justificam a exclusão de léxico catalão a favor de expressões locais. Algum partido político da esquerda colabora na legitimação da secessão linguística com a escusa de, assim, “se aproximar mais do povo” e facilitar a sua difusão. Também na Galiza muitos supostos inteletuais se recusam a chamar português à nossa língua, com parecidos argumentos falaciosos.

          No fundo o que estão a fazer com o catalão na região de Valência é aplicar a ‘solução final’ que já levam duas décadas a aplicar contra o português na Galiza.

          Data de Publicação: 07/03/2004